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EU



Ensaboa mulata, ensaboa

Ela é descendente de índios. Tem uma cara dura, amarrada, carrancuda. E quase sempre age com a mesma dureza e sisudez. Muito embora em determinadas situações deixe à mostra a sensibilidade de mãe, de mulher, de esposa.

 

Teve que se virar na vida. Por isso, não lamenta pelos filhos que deixou pelo caminho a mercê dos cuidados de pessoas que desconhece até hoje. Os que resolveu criar – alimentou e vestiu – mas no lugar dos carinhos, deu palmadas. Boas sovas para isso, para aquilo e até sem justificativas.

 

Ela mesma carregava as cicatrizes dos amores que vivera. Uma tão profunda e comprida que representava um gesto que quase lhe arrancara o pescoço. Foi aquele desgraçado que lançou um copo de vidro em sua direção enquanto discutiam. Mas foi a última vez. Arrumou os trapos e foi embora. Tomou um ônibus e seguiu rumo à Paraíba.

 

Lá, foi morar no interior, em bairro de periferia. Era violento e os malandros ficavam de olho nas suas coisas. Mas não dava para arranjar nada melhor. Resolveu ganhar o pão como lavadeira. Tinha braços fortes, muita força e disposição.

 

De novo amor à tiracolo foi trabalhar em casa de família. Era muita roupa suja para dar conta. Mas ela sempre conseguia. Mesmo entre reclamações e ameaças de que se continuasse daquele jeito ia sumir dali. E saia resmungando com seu português sôfrego: "não tem iscundição". O que queria dizer é que não tinha "condição" de enfrentar tantos baldes e aquela rotina de ensaboar, quarar, enxaguar, estender.

 

O seu marido era Clóvis. Mas na sua linguagem virou "Crovi". E até o seu nome, Lourdes, para ela era "Lurdi". E assim todos iam anexando no seu vocabulário o palavriado de Lurdi e de sua irmã Corma (Cosma), que por seu intermédio também foi trabalhar lá.

 

Com o salário Lurdi mobiliou toda a casa. Aproveitou as promoções do Real e em mil prestações comprou sofá, som, video cassete, geladeira. Tudo quanto foi de eletro-eletrônico. Mas aí que os malandros se interessaram mesmo em invadir o seu cafofo.

 

Ela contava com a proteção de Crovi. Mas precisava construir um muro. Com muita economia e chantagenzinhas aos patrões (aquelas de não lavar mais tanta roupa) conseguiu todo o dinheiro. Cercou a casa. Mas aí ficou faltando a proteção de Crovi. Ele vendeu o fusca sem documentos que tinha e fugiu com outra mulher.



Escrito por Waleska Barbosa às 11h15
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O asfalto virou mar

Os brasilienses gostam de caminhar. Parece que os finais de semana são sempre reservados para o que parece ser a única diversão possível. Os lugares escolhidos são variados. Geralmente, proporcionam um contato estreito com a natureza como os Parques da Cidade ou Olhos D'Água.

 

Mas, por incrível que pareça, o asfalto também atrai. A multidão que usa e abusa dos Eixos Norte e Sul para caminhar, correr, andar de bicicleta, dar banho de sol em filhos e animais de estimação até impressiona.

 

É a revanche. Até o sábado os "Eixões" são territórios proibidos para pedestres. As faixas se tornam propriedades absolutas dos carros – motores possantes, motoristas endiabrados. Atropelamentos, acidentes, feridos, mortos... Palavras sempre relacionadas àquelas pistas.

 

Além disso, é quando se pode atravessá-los sem ter que enfrentar as passarelas. São escuras, descuidadas, malcheirosas, escuras, pichadas. Os sem-carros, no entanto, são obrigados a usá-las, ratificando o caráter bairrista da "terra do poder". Brasília é bonita e portentosa. Mas quem não tiver carro (ou, antes disso, dinheiro) é alijado da cidade, sem dó, nem piedade.

 

Portanto, um sentimento inconsciente de poder, de retomada, é o que deve imperar nos caminhantes. Domingo passado estava eu atravessando o Eixo Norte comemorando o fato de poder me livrar das passarelas. E, portanto, curtindo o sentimento – consciente – de poder, de retomada daquele território, quando ouvi uma criatura dizer: "Isso aqui é um mar coberto de asfalto".

 

O homem devia estar pensando que formulara a frase do século, que era autor de uma descoberta importante. O seu interlocutor devia compartilhar da mesma opinião, pensei.

 

Eu, ao contrário, achei aquela analogia, aquela metáfora, a mais chinfrim do século. Aliás, um desrespeito com os oceanos. Onde já se viu comparar cenários paradisíacos como as praias - terrinhas mornas – claras ou mais escuras – que margeiam os nossos ou quaisquer outros mares?

 

Já não basta dizer que a praia daqui é o Lago Paranoá? Decidi perdoar aquelas palavras. Deveriam ser fruto dessa tristeza, esse inconformismo com o fato de estarmos no Planalto Central. Tem gente que ainda nem conhece o mar, pelo menos, ao vivo. O seu cheiro, os seus encantos, o estado d'alma que propicia. Daí, a incoerência de usar o seu nome em vão. De achar que o asfalto virou mar. E o mar?



Escrito por Waleska Barbosa às 11h12
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As surpresas dos sem-emprego

 

Ele precisava arranjar emprego. Mas estava tão escolado quanto à rotina cansativa que isso representava que seu corpo já criara resistência e, para fugir a mais uma entrevista, mais uma entrega de currículo, mais uma busca na internet, mais uma longa espera, apresentava sintomas variados.

 

Era uma tal de dor de cabeça na hora de sair, sem falar no sono incontrolável. Sem falar ainda nas desculpas de última hora: "de manhã as pessoas estão mais ocupadas, vou à tarde, vou mais tarde. E assim o adiamento até a inevitável conclusão: "Xi, perdi a hora".

 

A cada nova experiência tirava lições que, estava certo, iriam ajudá-lo a ter um melhor desempenho da próxima vez. Começou até a criar alguma superstições. Percebeu que quando ia bem-arrumado, de terno, gravata, meias elegantes, sapatos novos e lustrosos, tudo dava errado. Não era chamado, não era escolhido. Muito embora, todos os manuais de recursos humanos dessem como certa a vitória para quem soubesse tirar bom proveito do marketing pessoal.

 

Mas ele não queria mais saber desse papo. Suas decepções deviam ser levadas em conta. Quem sabe não teria sorte caso se rebelesse a esse lenga-lenga de best-sellers escritos nos Estados Unidos e nem sempre adaptáveis à realidade brasileira?

 

Estava decidido. Nada de parecer um "mauricinho". Quando tivesse que encarar de frente um provável empregador subverteria todas as regras de etiqueta. E foi assim mesmo que aconteceu. Meio sem querer, é certo.

 

Já nem tinha esperança que aquela entrevista iria acontecer. Afinal, tinha enviado o seu perfil profissional havia algumas semanas. E nenhuma resposta. Nenhuma satisfação. Nada que pudesse aplainar sua ansiedade. Nada que pudesse alimentar – ou acabar de vez – com suas expectativas. "Palhaços!"- pensava ele. Será que nunca passaram por isso? Será que não vislumbram a possibilidade de passar? Por que não se colocam no lugar dos outros e agem com o mínimo de respeito?

 

Pensava justamente nisso quando o celular tocou. Estava no meio do Setor Comercial Sul. Era quase hora do almoço. Enfrentava um calor dos diabos, um tal de gente se batendo por um milímetro de calçada, enfim, um corre-corre estressante.

 

Não pôde acreditar. Era o homem da empresa que oferecera a melhor proposta. Precisava vê-lo. Não amanhã ou depois. Mas agora. E ele resolveu aparecer daquele jeito mesmo. Suado, roupa amassada, cabelos desgrenhados, sapatos puídos e cheios de poeira.

 

 Mas o que ouviu mudou o seu ânimo: estava empregado. Dava para entender?



Escrito por Waleska Barbosa às 11h10
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Um outro Edifício Master

 

 

 

Podiam até ser comparadas ao filme Edifício Master. Mas embora fossem cenas da vida real – e a vida real muitas vezes é mais ficcional do que a ficção – não estavam sendo registradas, não seriam exibidas no cinema, não desfilariam sob os olhos curiosos da platéia.

 

O que tornava sua angústia tanto pior. Sua vinda para cá tinha sido pura aventura. Soube de uma vaga no governo. Salário promissor. O que tinha a perder? Recém-formado, louco para enfrentar algum grande desafio, disse sim. Fez as malas.

 

Chegou. Agora, era partir para as coisas práticas. Morar. Sim, arranjar uma moradia era a prioridade número um. Endereço nobre, todo o resto pobre. Quartinho na W3 Norte. Horrível. Sujo. Cheirando mal. Baratas e ratos passeando livremente. Disputando espaço com os humanos que ali cairam. Prestar atenção naquelas vidas errantes... Bom passatempo. Comparando-se aos demais seria mais fácil enfrentar as sempre dificuldades de todo início. E passar adinte. Teria que passar adiante. Não podia ficar como aquele homem rabugento. Coitado, depois de tanta solidão não devia mesmo ser possível exibir algum rasgo de solidariedade, bondade, simpatia. Perdera o contato com a família, com os filhos. Vivia da lembrança dura de tê-los possuido um dia. A idade, a falência, as doenças. Responsáveis por tudo. Malditas. Cretinas.

 

E aquele argentino trôpego? Será que tinha mesmo viajado o mundo todo? Exercido cargos altos em grandes empresas? Será que vinha do país vizinho ou aquele sotaque era um arremedo? E todas aquelas fotos dos filhos que dizia ter? Se bem que, dos trinta rebentos, só trazia as imagens de alguns. Podiam ter sido catadas nos lixos. Recolhidas de algum lambe-lambe em declínio. Roubadas do álbum de família que um desavisado displicentemente havia lhe mostrado. Mas podia ser tudo verdade. E aí, era um sortudo. Tinha vivido dezenas de amores. Seu coração experimentara o sumo de tudo que do sentimento advém. Deitara com mulheres que se entregaram a ele com a delicadeza de uma rosa que se abre para se cumprir seu ciclo. Com submissão, subserviência e, beleza. Muita beleza. Mesmo que depois tenham amargado a solidão. Viram seu homem partir sem dizer se e quando voltaria.Viram-no fechar a porta da sala. Para sempre. Como na música de Chico Buarque, esperaram com seu vestido cada dia mais curto. E ele não teria a sorte de acompanhar o crescimento daquelas barrigas. Nem as veria parindo. E do filho, talvez tivesse um dia, apenas um registro fotográfico.

 

E aquele velho que só bebia? Como o seu corpo suportava tanto álcool? Estaria tudo bem se não fizesse tanto barulho. Se seus dentes não fossem podres e seu hálito insuportável. Se não rogasse pragas a pessoas imaginárias. Se não quebrasse seus parcos objetos a cada nova embriaguez. Aqueles já cacos eram atirados contra a parede com tanta freqüência quanto o copo lhe caia nos lábios.

 

Precisava sair dali. Cumpriu a promessa. Naquele dia mesmo. Viu seu colchão inundado, molhado, ensopado. Aquele dia estava quente. Nada de chuva. Aquela água jorrou de um cano estourado. O teto poderia ser o próximo. E não queria estar lá.



Escrito por Waleska Barbosa às 11h08
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São João acende a fogueira do meu coração

 

É difícil ouvir falar em forró e não me animar toda. Sou da terra do "Maior São João do Mundo"- Campina Grande (será que ainda tem gente que não sabe?). Cresci participando de todos os rituais das festas juninas. Em casa, o dia 23 de junho começava cedo. Em preparativos que se transformariam em uma das mais animadas forrozadas da cidade.

 

Havia uma rotina. Renan mexia a canjica. Valéria e Baby faziam os bolos. Raniere saia para comprar os fogos e os balões. Roberto trazia a autêntica cana de cabeça, ou seja, uma autêntica cachaça. Eu e minha irmã Vitória amarrávamos as pamonhas. Mamãe, de lenço no cabelo, não cansava de gritar conosco. É que não perdíamos a oportunidade de rir, brincar, fazer piadas, atrapalhando nossa missão. Não raro, os nós que não apertávamos o suficiente desabavam ao peso daquela massa cheirosa e muito bem preparada. Maria Barbosa jogava com voracidade o preparado na panela de plástico e nos ameaçava com severas reprimendas.

 

Mesmo assim, tudo dava certo. É claro que às vezes acontecia um imprevisto. Era o bolo que não subia. O picado que ficava salgado ou coisas assim. Mas o resultado era primoroso. A casa desde o início do mês já ostentava seus ornamentos. Eram bandeirinhas coloridas nas salas. Correntes de jornais e de revistas penduradas na garagem e no terraço. Em volta das lâmpadas, as lanternas de papel. Cobrindo os pilares, palhas de coqueiro, retiradas do nosso terreno mesmo.

 

As roupas eram de xadrez. Especialmente preparadas para aquela ocasião. Chapéus de palha protegiam as cabeças de homens e mulheres. Às vezes, ouvíamos música mecânica. Pé de serra legítimo. Noutras, quando a festa era mais elaborada, contratávamos um trio forrozeiro – triângulo, sanfona e zabumba.

 

Quando minha irmã Vânia veio dos Estados Unidos – onde fazia doutorado – pela primeira vez, mamãe exagerou. Foi festa à altura da alegria que a sua presença dava a todos nós.

 

Uma quadrilha profissional foi dançar no nosso terreiro. Eram tantos babados, tanta maquiagem, tantos pares rodopiando no salão... Montamos barraquinhas como nas quermesses. Ali, cada um comia e bebia à vontade.

 

Mamãe mobilizava todos para soltar os balões. Cada um tinha que segurar uma pontinha para que ficasse bem esticado e o ar pudesse prepará-lo para subir. Quando ele rompia o céu batíamos palmas, comemorávamos e ficávamos a espiar aquela luzinha até que sumisse.

 

A fogueira era acesa logo cedo. Eram suas brasas que acendiam os foguetões e os chuveirinhos. Eram naquelas laberadas que assávamos milho. E do alto do nosso bairro, Bodocongó, podíamos ver a fumaça que encobria toda a cidade. Em cada porta, uma chama. E no ar aquele cheirinho bom de São João.



Escrito por Waleska Barbosa às 11h07
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Pequenas tecnologias da grande cidade

 

Estava passando displicentemente. Olhar perdido nas paisagens movimentadas da cidade. Pensamento divagando em problemas vários. Mas aquela imagem prendeu. Estava quase diluída no imenso jardim. Porém, foi impossível não captá-la. O homem estava sentado no chão. Era preciso um olhar mais arguto para perceber o que fazia. E, ao contrário da primeira impressão, ele não era mais um mendigo a assistir seu tempo se arrastando. Era um trabalhador. Informal, de rua, das esquinas, dos sinais, dos ônibus. Mas era um trabalhador. E, como todos os outros, também precisava da tecnologia para otimizar a produção. Não estamos falando de grandes descobertas científicas. Apenas uma técnica que desenvolvera para tornar mais simples seu ofício.

 

O homem – um vendedor de balas. Daquelas quadradinhas cujas embalagens têm uma espécie de babado nas duas pontas. Fizeram parte de todas as infâncias. E ele insistia para que os rebentos da pós-modernidade também as conhecessem. Seu invento – um "desenrolator Tabajara", para lembrar as engenhocas criativas do pessoal da televisão.

 

Na verdade, uma roldana artesanal. Um saco envolvendo as pernas levemente abertas servia de suporte para um tubo grande de durex que girava facilmente quando esticado pelas mãos rudes do homem. Ali ele ia "colando" as balas. Uma por uma. Pacientemente. Antes, certificava-se de que o lado que grudaria na fita adesiva estava certo, se a embalagem não estava de cabeça para baixo.

 

Era assim todo santo dia. Ritual que cumpria antes de tentar comercializar produto tão pouco rentável e vendável. Era assim desde que perdera o emprego. Não queria passar fome. Nem permitir que isso acontecesse aos filhos e à esposa. Também não gostaria de ser impelido a roubar, frente a momentos de desespero e necessidades prementes.

 

Preferia continuar com aquele oficio. Em dias de calor conseguia fazer R$ 2. Aproveitava as poucas janelas ainda abertas (vivia a era da insegurança, portanto, dos ar-condicionados) e tentava seduzir as crianças com aquela linha que balançava exibindo guloseimas. Juntando o lucro da semana dava para comprar algumas frutas, verduras e não-perecíveis. Quando a feira livre já estivesse encerrando o expediente. Produtos murchos, estragados, amassados, quebrados e até passados do ponto eram mais baratos. Não tinha orgulho. O importante era manter a barriga cheia.



Escrito por Waleska Barbosa às 11h03
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Quando uma rosa faz diferença

Quando jovem ela era a autêntica romântica. Imaginava como seria o seu homem ideal – aquele que se lembrasse de todas as datas comemorativas, aquele que nunca deixasse de lado o valor das surpresas, aquele que enviasse cartões com mensagens carinhosas e o inesquecível "eu amo você".

 

Mas a realidade encobriu os sonhos, os desejos, a imaginação. Casou-se com uma pessoa prática, objetiva, metódica, realista e todos os outros adjetivos que sirvam para definir a personalidade de alguém que não se importa com valores subjetivos. Também, era o homem da casa, o provedor. "Tinha mais com que se preocupar...". Mesmo assim, se esforçava para agradar à esposa. A cada data – aniversário, dia das mães, dia dos namorados, natal e todas as outras em que o comércio se agita para movimentar o mercado, ele comprava uma rosa vermelha (apenas uma) e a depositava nas mãos dela.

 

No começo, até gostou. Era quando achava que o gesto significa as tão sonhadas surpresas. Com o passar dos anos virou uma prática, uma tradição e, o pior, uma obrigação. Talvez não para ele, que podia enxergar naquilo um prazer. Mas para ela, estender a mão era a certeza de que viria cravada de espinhos. Os espinhos daquele fardo, daquele homem, "o escolhido".

 

Meses após a morte do marido, fulminado por um infarto, ela já não pensava em nada disso. Teve que manter o lar. O trabalho na recepção de um jornal era até divertido. Acompanhava o entra-e-sai das equipes de reportagem, ouvia histórias pelos corredores e, assim, o tempo passava sem sobressaltos. Agora "tinha mais com que se preocupar...". Mas naquele dia, 12 de junho, o passado voltou à tona perturbando-a. Recebeu rosas, ramalhetes, arranjos. Não eram para ela. Só ficavam nas suas mãos o tempo suficiente para dar um telefonema e dizer a alguém que havia uma encomenda esperando na recepção.

 

Chorou. Quis todas as rosas das quais desdenhou por anos. Deu valor a todas elas com um sentimento de dor e sofreguidão tão intensos que se tornaram quase insuportáveis. Queria voltar no tempo e livrar-se dos erros. Queria voltar no tempo e sorrir e alegrar-se com cada uma daquelas rosas que apenas segurava nas suas mãos o tempo suficiente para encontrar uma lata de lixo.

 

Levantou-se e saiu. No cemitério, depositou aquele buquê sobre o túmulo do homem que fora tão incompreendido e cantou baixinho. "Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti..."



Escrito por Waleska Barbosa às 11h01
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Do lixo ao Piauí

Era mais uma retirante. Saíra do Piauí com o velho sonho da vida melhor. A única coisa que conseguiu foi trabalhar como empregada doméstica em casa chique, condomínio de luxo. Não que isso fosse alguma vergonha. Mas, falar a verdade? Esperava mais dessa vida de meu Deus.

 

Como não teve jeito, procurava tirar proveito das oportunidades. E aquela foi uma senhora oportunidade. Estava na janela da mansão espanando uma coisinha aqui, outra ali. O fato é que não estava com as maiores das coragens e, entre um gesto desleixado e outro, deixou-se prender por uma visão que despertou sua ambição.

 

Na casa ao lado a vizinha perua retirava do closet, palavra que desconhecia até então, algumas dezenas de sapatos. Não que fossem velhos. Deviam apenas ser da coleção passada. Ou, motivo mais fútil ainda, terem "enjoado" a sua dona. Pois bem, a madame puxava tudo sem dó nem piedade e ia jogando em grandes sacos de lixo.

 

"Oba! Se tudo estava dentro da lógica, depois dos sacos aquele patrimônio iria para a lata...de lixo".

 

O espanador parou. Todas as atenções estavam voltadas para o próximo passo daquela mulher, a perua. Precisava ficar atenta. As paredes escondiam alguns detalhes que não podia perder. O tempo era seu inimigo.

 

Mas tudo deu certo. Madame mesmo gastou os pezinhos para ir lá fora e tacar o saco no contêiner. Antes que o caminhão passasse, ela precisava retirar aquele embrulho.

 

Saiu tentando ser discreta ao máximo. Olhou para os lados, pisou devagar. O coração acelerou. A missão era grave. Tanto que já nem se preocupava com o fato de poder estar sendo observada.

 

Conseguiu. Já de volta à casa da patroa analisou os calçados com a atenção e argúcia de um ourives. O ouro reservou para si. Ainda bem que lhe servia.

 

Os pares "mais ou menos"ou maiores que o seu número foram separados em outra pilha. Teriam outro destino. Serviriam para que fizesse uma média com o pessoal da terrinha. Afinal, ninguém por lá sabia que o seu destino na capital do País tinha sido tão ingrato. E se dependesse dela, não saberia mesmo. Nunquinha.

 

Embrulhou tudo em papel bonito, colorido e mandou para o Piauí com um bilhete redentor: "Pessoal, estou mandando esses sapatos que não uso mais. Estão fora de moda".



Escrito por Waleska Barbosa às 10h49
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O encontro da liberdade com a prisão

Eram quase 10h. O cenário: Rodoviária do Plano Piloto. É certo que o lugar é sempre conturbado. Mas aquela fila chamou minha atenção. Era enorme e inédita aos meus olhos. Quis identificar para onde se dirigiam os ônibus que paravam naquela plataforma. Mas entre um pensamento e outro esqueci a missão. E a fila só crescia impedindo a passagem de quem queria atravessá-la. Logo que o transporte tão esperado estacionou ali, as coisas foram se esclarecendo aos poucos.

 

Todos queriam entrar ao mesmo tempo. Eram, na maioria, mulheres. Humildes, jovens, grávidas, senhoras, crianças, bebês. Havia homens também. Eram mais tímidos mas estavam ali.

 

O motorista já demonstrava impaciência em esperar tantos passageiros. Lá dentro, o cobrador também se desesperava tinha que conseguir troco para todos os R$ 3, R$5, R$10. A passagem custava R$ 2,5.

 

Já não cabia ninguém. E o barulho do motor demonstrava que a partida seria dali a alguns segundos. E então, surgiram os retardatários. Correndo. Acenando. Implorando um pouco mais de complacência. Fazendo uma promessa tácita que naquele momento se transformariam em formigas ou no que fosse necessário para que ainda coubessem naquele espaço exíguo.

 

Conseguiam. Entravam. E mais uma. E mais uma. A última carregava na sacola (objeto comum a quase todos os passageiros) uma penca de bananas. Devia ter sido a única coisa que conseguira comprar com o parco salário. Ou talvez fosse o atendimento a um pedido aflito.

 

Não havia placas indicando qual seria o destino daquela viagem. Mas a partir de palavras soltas que circularam com o vento descobri: Complexo da Papuda.

 

E então aquelas pessoas ganharam novos significados para mim. Busquei em cada face a história que levara o parente à prisão. As história de amor, compaixão, desprendimento geradas, provavelmente, por tantas outras histórias de perdão.

 

O que passava nas suas cabeças naquele momento? Certamente a ânsia em dar um abraço, um beijo, entregar o que traziam nas sacolas. Será que haveria cobranças? Aquele senhor bem-vestido perguntaria ainda ao seu filho por que cometera aquele crime?Ou o silêncio impera nos dias de visita?

 

E as novidades? O primeiro dente do filho, a avó velhinha que estava hospitalizada, o dinheiro que já não dava para as despesas? Quais seriam, afinal, os gestos e as palavras pertinentes no momento em que a liberdade se encontra com a prisão?

 



Escrito por Waleska Barbosa às 10h47
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Miúdos textos I

Eles haviam marcado um encontro.

Seria o último do ano.

Logo viajariam.

Ela não teve tempo de se preparar para aquele encontro.

Nas horas antes estava em uma festa.

Mesmo assim buscou forças.

Abriu a porta com um sorriso.

Abriu os braços para um abraço.

Abriu o corpo para recebê-lo.

E dormiu no meio daquela visita.

Acordou de madrugada.

Sozinha.

Luzes acesas.

Corpo no chão.

Percorreu com os olhos o derredor.

Percorreu os cômodos com a incredulidade e confusão que ficaram.

Estava mesmo sozinha.

 

 

 

 

Soube que tinha outra.

Aquela mesma que conhecia.

Pôxa...tinha que ser ela?

Adoeceu.

Quis ser levada ao hospital. Não pôde ir.

A doença ficou rodopiando entre o corpo e a alma.

Dor.

Uma dor até então desconhecida.

Procurou os amigos em comum.

Eles confirmaram.

E a dor.

Ela o procurou às duas da tarde.

Sol. Sol e dúvidas. Sol dúvidas dor.

Sol dúvidas dor e vontade de estar com ele. De burlar o fim. De transgredir o não.

Ele não abriu a porta.

Disse estar acompanhado.

Ela voltou.

Lágrimas nos olhos.

Sol dúvidas dor.

 



Escrito por Waleska Barbosa às 11h19
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Miúdos textos II

Ela estava de saída.

Ele apareceu.

Trouxe-a de volta.

Falou as loucuras que gostava de ouvir.

Demonstrou um amor que, aos que olhassem, pareceria da vida toda.

Mentiu que iria ser pai, sim, ela esperava o seu filho tão esperado.

Todos comemoraram. Pediram que não continuasse bebendo aquela cerveja.

Gerar um filho gera restrições.

Ele programou a noite que teriam.

Muito amor, muito sexo, muito prazer.

No outro dia, almoçariam.

Parou os planos por aí. Não iriam muito longe.

Ir embora para chegar.

Despediu-se na janela do carro. Iriam se reencontrar dali a pouco.

Deu-lhe um beijo e uma caixa de lichia.

Partiu dali mesmo. Desfazendo as juras.

E desde aquele dia ela não sabe se está vivo ou morto.

 

 

 



Escrito por Waleska Barbosa às 11h16
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Miúdos textos III

Queria contar as horas.

Deixou a conta de lado.

Resolveu contar os dias.

Não gostava de fazer contas.

 

Era o oitavo dia.

Naquela mesma hora, um domingo atrás daquele em que apenas rememorava, eles estavam juntos. Foi o melhor dormir, o melhor acordar de todos os tempos.

Agora, estava sozinha.

Tentando domar o corpo para que não se entregasse à ressaca de uma semana inteira de noites passadas na rua. Sem ele.

Aquele domingo podia ser em todos os dias da semana.

Mas ele só quis que fosse um domingo em todos os domingos.

Será que ele ia acordar lembrando que no outro domingo disse “bom dia”, deu um beijo, um abraço, sorriu para ela...

Ou aquele domingo teria morrido nele mesmo?

 

 

 

Ofereceu-lhe um vinho.

Comprou-lhe um vinho barato.

Garrafa de plástico.

Copos descartáveis oferecidos pelo funcionário de uma barraca. O mesmo que vendera o vinho.

Saíram pela praia.

Será que havia orgulho pelo romantismo do que viviam?

Pareciam erguer os copos como se de cristal fossem, beber o suco de uva (certeza de travo na boca ao amanhecer o dia) como se valesse milhões.

Saíram pela praia, pela ponte, sobre o mar, bebendo, rindo, trocando olhares, mirando a lua cheia, arrumando os cabelos desgrenhados pelo vento.

Parecia que viver era tão simples.

Era apenas se juntar àqueles tantos casais e ser casal também. Fingindo amor. Fazendo amor, talvez.

Ela não estava feliz.

Mas gostava do cenário.

Não quis beijá-lo.

Evocou a memória de alguém. Tanto inexistente quanto ausente.

Mas era preciso respeitá-lo. Havia jurado a ele fidelidade.

Era uma cena fingida.

Queria apenas ter uma história para contar.

 

 

 



Escrito por Waleska Barbosa às 11h15
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Mandaí

 

...me manda flores, me manda cigarro, me manda beijo, me manda abraço, me manda bala, me embala....

 

...me manda daqui, me manda sorte, me manda numa cama, me manda noite, me manda uma banda, me manda uma cantada/cantiga....

 

...me manda você, me manda poesia, me manda voz, me manda imagem, me manda letra, me manda vídeo, me manda vida....

 

...me manda sorriso, me manda risada, me manda loucura, me manda meu cheiro que está enfiado em você....

 

... me manda, se manda comigo.



Escrito por Waleska Barbosa às 10h32
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Relatos do recesso – O MAR

O mar.

A água/sal. Seu poder.

O céu/azul. Seu encanto.

O sol/bronze. Suas cores.

As barracas/restaurantes. Seus sabores.

Os irmãos/amigos. Seus amores.

As areias/pedras. Suas marcas.

As coisas/lugares. Suas paisagens.

A voz/sorriso. Seus sons.

As mãos/braços. Seus abraços.

Os dias/noites. Seu acontecer.

A vida.

Sua maneira que só a gente tem de viver.

 



Escrito por Waleska Barbosa às 10h09
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Relatos do recesso - A CASA

Fiz questão de estar na Paraíba entre Natal e Ano Novo.

Queria a minha cidade, queria a minha família, queria a minha casa.

Não podia ter sido melhor.

E apesar de tanto agito – houve serenidade.

Ótimos encontros.

Mais paz. A aceitação do estado de coisas sem desespero, sem questionamentos.

A minha casa estava linda. O ao redor dela. Flores aos montes pintando de vermelho, azul, roxo, aquele cenário que já foi tão meu. O terraço foi nosso espaço de festar, de cantar, dançar, receber.

O vento balançando as folhas e nossos cabelos. As cadeiras nos balançando. As luzes penduradas nas árvores dando frutos iluminados.

A vista para o Açude de Bodocongó – cada dia menor, mas ainda lá. A vista para um horizonte que no São João se veste de fumaça de fogueiras.

O sol marcando tudo com sua força. A noite marcando tudo com suas estrelas e seu luar.

Ficamos em casa nas festas de final de ano. Tivemos o álibi de estar em casa – onde varamos a madrugada. Em casa distante, em casa murada, em casa em que a polícia não vem dar a resposta que os vizinhos pediram. Ali, podemos fazer nosso barulho, ouvir nossas músicas, cantar e dançar.

As festas eram praticamente nossas e com nós – eu, Vitória, Paulo, Ezymar. Já foram de muita gente. Nossa família já teve a época em que não prescindia de estar lado-a-lado.

Desta vez, havia ruptura, proibições. Uns não podiam estar com outros. Outros preferiram outros lugares.

Não havia o vozerio e as brincadeiras de antes. Nem a tristeza da época estava tão marcada.

Procurei não pensar no que havia, no que já havia sido. Procurei viver o que se apresentava e ser feliz com aquilo. Afinal, tínhamos tudo – nossos pais. Eles a linha e o linho. A cola. A liga. O cimento. A costura. O elo.

A mesa farta como mamãe gosta e preza. O peru, o bacalhau, o pernil. As castanhas. O panetone. Os queijos. Nossa toalha vermelha. Eu não perderia por nada esta cena. Este encontro. Este momento.

Deu preguiça. Vontade de ficar ali. Sendo mimada. Todo dia um quitute para nos agradar. Biscoitinhos, pamonha, queijo, tapioca. A sopa – faça chuva ou faça sol – toda noite no jantar.

Nordeste é cara de comida, é cara de fartura, de oferendas, do chamado para sentar-se à mesa.

Nossa casa é isso tudo e muito mais. É convite para ser feliz, acima e apesar de tudo que queira puxar para o lado contrário. É feita de gente. Gente que ri, que zomba um do outro, que canta, que dança, que comemora – que sabe o real significado de tudo o que tem significado para nós.

Foi muito bom estar em casa.

Foi tempo de muita alegria.



Escrito por Waleska Barbosa às 11h52
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